Um quadro que não pintei

O meu nome é Maria João Sande Freire, tenho 38 anos, dois filhos, uma rapariga com 14 e um rapaz com 13 e sou fibromialgica.

Durante anos, entre telas, tintas e pincéis, expressei os meus sentimentos. A certa altura comecei a ter dificuldade em dormir e passei a pintar de noite. Até nem era mau, afinal o silêncio da madrugada dava-me uma certa tranquilidade, mas os movimentos tornaram-se dolorosos e cada pincelada assemelhava-se a uma punhalada nas costas. A pouco e pouco o prazer de pintar transformou-se num sacrifício. Das telas passei a pintar pequenas peças de vidro, mas a sensação de queimaduras nas costas era a mesma que já começo a sentir neste momento em que escrevo.

Desiludida mas não vencida, mudo de actividade, e como sempre me dei bem na cozinha, abro uma pequena empresa de catering; mas entre bolos e pastéis o cansaço e as dores tornaram-se cada vez mais persistentes.

Pensei que fosse do excesso de trabalho e tentava descansar o mais possível, mas o estado de vigília era cada vez maior, o pouco que dormia não era o suficiente para recuperar forças, quase sempre tinha torcicolos pela manhã e para sair da cama muitas vezes fazia uma ginástica inenarrável.

Conduzir foi outra tarefa que se tornou penosa: carregar na embraiagem constantemente (em filas de trânsito, por exemplo) causa-me dores horríveis na perna e meter as mudanças, muitas vezes só com a ajuda da mão esquerda.

 

De dia para dia o cansaço intensificou-se e tarefas simples como fazer uma cama, tomar banho ou comer, tornaram-se complicadas.

Junto da minha médica de família, encontrei muita compreensão e apoio, mas que não eram suficientes para me atenuar a angústia provocada pela longa caminhada entre clínicas e laboratórios onde os exames e as análises não detectavam absolutamente nada.

Sem conseguir entender o que se passava comigo, comecei a deprimir, pois sem nada ter, alguma coisa tinha. Medicamentos atrás de medicamentos; analgésicos, anti-inflamatórios, antidepressivos, vitaminas, relaxantes musculares, de tudo um pouco eu tomei, fiz ginástica, fisioterapia com poucos ou nenhuns resultados e no caso dos medicamentos na maior parte das vezes apenas sentindo os efeitos secundários.

Para quem durante doze anos praticou desporto de competição, para quem sempre teve uma vida hiperactiva e saudável, com um ambiente familiar estável, ver-se de repente incapacitada, sem conseguir sequer dar a atenção e prestar os cuidados necessários aos filhos; isso fez-me entrar num estado de depressão profunda onde as ideias suicidas só aos poucos foram sendo afastadas pelo diálogo permanente com o meu marido, amigos e médica de família que nunca deixaram de me dar apoio.

 

Depois de vários meses de exames sempre normais, ouvi pela primeira vez falar em fibromialgia em Abril de 2001. A 8 de Junho de 2001, depois de ter perdido 10kg em 30 dias por não conseguir comer e por estar num estado de cansaço extremo que me fazia desmaiar constantemente, fui internada para estudo no Hospital Garcia de Orta. Depois de repetidos todos os exames e análises, apenas me foi detectada uma hepatite tóxica, provocada pelos medicamentos que até ali tinha tomado. Ao referir que a minha médica de família suspeitava que estivesse a sofrer de fibromialgia, com a maior das friezas me foi dito que eu estava era mal da cabeça e tinha que me tratar em Psiquiatria porque teria uma grande depressão.

Pouco ou nada convencida, lá fui fazendo o que me pediam e fui assim passando de especialista em especialista até que em Janeiro de 2002 numa consulta de Reumatologia me fizeram o diagnóstico da doença.

Não me tirou o cansaço nem as dores mas deu-me a tranquilidade para poder lidar com ela o melhor possível, para me libertar da depressão, para viver um dia de cada vez com a melhor qualidade que conseguir.

Possibilitou-me o encontro com o Grupo de Apoio onde em cada um nos revemos um pouco e onde a partilha das nossas vivências nos ajuda a viver melhor.

 

Neste momento vou tentando como me vai sendo possível, ajudar na divulgação da doença, sendo esta uma forma de me sentir um pouco útil, uma vez que estou com baixa desde Junho de 2001.

Para terminar quero agradecer aos meus familiares mais próximos, à minha amiga Rosarinho, aos meus filhos e ao meu marido por nunca terem deixado de me apoiar.

 

Autora: Maria João Freire, sócia e fundadora da Myos

Data de criação do artigo: 12 de maio de 2003

Este artigo foi escrito pela autora em 2003 para utilização pela Myos e não pode ser reproduzido em outros sites, blogues e páginas, sem a expressa autorização da autora e da Myos.

 

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