O dilema da dor e da incompreensão

A Fibromialgia é uma síndrome (conjunto de sintomas e sinais clínicos) de causa desconhecida, mas frequente, principalmente no sexo feminino. Esta síndrome é caracterizada por dor crónica difusa, mais acentuada a nível dos músculos, associada a um conjunto de alterações orgânicas funcionais (cólon irritável, bexiga espástica, etc.) e, frequentemente, também a queixas de fadiga, sono de má qualidade, ansiedade e depressão. Vários estudos demonstram que as doentes com Fibromialgia têm um limiar baixo da percepção da dor e parece que também são portadoras de mecanismos a nível do sistema nervoso que amplificam e generalizam a sua consciência da dor.

Foram descritos “pontos de gatilho” a nível muscular que, quando sujeitos a pressão, produzem uma sensação exagerada de dor. A sensação de perda de memória é também frequente e pode-se interligar a um grau maior ou menor de ansiedade e depressão que participa da síndrome fibromiálgica.

Muitas doentes com Fibromialgia apresentam um estado de hiper-alerta em relação aos sintomas e sinais que as envolvem. É como se o seu corpo e mente estivessem em permanente vigília contra perigos e ameaças desconhecidas, mas interiormente temidas. São também doentes com uma tendência frequente para o perfeccionismo e uma visão da vida em que as pequenas coisas assumem proporções de dimensão exagerada em relação ao seu peso e efeito real.

Este processo de olhar negativamente para si e para o que envolve a doente fibromiálgica é designado de catastrofização, ou seja, a visão catastrófica das coisas, sentida no presente e projectada no futuro.

Esta percepção negativa de si e do mundo é potenciada frequentemente por notícias ou mensagens na internet ou na comunicação social, que mostram a Fibromialgia como uma fatalidade incapacitante inultrapassável da qual as suas “infelizes” portadoras dificilmente se poderão livrar. Querendo informar e alertar, muitas vezes com boa intenção, este tipo de descrições públicas não são mais do que um factor negativo em si mesmo para a potencial recuperação da doente fibromiálgica. Esta necessita de compreensão e não de uma vitimização, que apenas servirá para reduzir as forças que estão em si mesmo e com as quais terá que contar para inverter o processo incapacitante que a afecta.

A complexidade desta síndrome, a incapacidade funcional que geralmente acarreta e a sua elevada frequência (prevalência de 2% a 13% na população em geral), tornam a Fibromialgia um grande desafio à “arte” de fazer medicina e à relação médico-doente.

Envolvida por uma multiplicidade de queixas, que vão muito mais além da dor corporal, a doente fibromiálgica sente-se como que “perdida” ou à “deriva” num mar imenso de sintomas e sinais corporais, sem encontrar rumo ou explicação para o seu sofrimento. Recorre assim frequentemente a meios ao seu dispor (internet e outros instrumentos de informação) que frequentemente apenas irão servir para aumentar a sua angústia e fazê-la assumir para si própria situações clínicas hipotéticas que, além de serem falsas, apenas contribuirão para exacerbar mais o seu quadro clínico e a sua infelicidade.

Na busca de respostas, a doente fibromiálgica procura as mesmas na eventual realização de exames complementares (análises, TACs, Ressonâncias, etc.), os quais nunca serão, por si só, capazes de explicar a globalidade do quadro que enfrenta.

No contexto da Fibromialgia, os exames complementares são frequentemente normais, devendo sempre ser pedidos sob estrita orientação médica. Estes exames podem ser úteis para a realização do diagnóstico diferencial com outras doenças que podem dar quadros clínicos semelhantes à Fibromialgia ou para a identificação de outras patologias associadas ou concomitantes.

Às dificuldades descritas anteriormente acresce o facto de que a Fibromialgia é, frequentemente, banalizada e até menosprezada por uma parte da comunidade médica, a qual chega a colocar em causa a existência desta síndrome incapacitante. A conclusão médica de que “isso é Fibromialgia”, em vez de uma porta aberta para a recuperação do doente, surge frequentemente como um escape para a incompreensão, falta de conhecimento ou de disponibilidade para lidar com a doente portadora desta síndrome, complexa mas revertível, ou, pelo menos, com possibilidades de melhoria.

A não compreensão das características clínicas da Fibromialgia e das particularidades da doente fibromiálgica podem tornar a consulta médica num período de “tortura mútua” entre uma doente sintomaticamente hipersensível, perdida no meio de múltiplos “alertas” do seu corpo e mente, e o médico incapaz de contribuir para inverter a corrente negativista da doente que tem de abordar. Neste caso, a incapacidade médica em lidar com este problema apenas irá contribuir para o agravamento da sensação da doente de que o seu quadro clínico se afunda cada vez mais no sofrimento e na incapacidade que a afecta, sem que se obtenham respostas concretas em relação à sua situação.

Na realidade, podemos afirmar que a doente com Fibromialgia nunca poderá ser bem tratada se as suas características “especiais” não forem entendidas, partindo-se dessa compreensão para uma abordagem global, que não se resuma a um acto de mera prescrição de medicamentos, o qual, isoladamente, não será suficientemente eficaz para o alívio do quadro clínico e funcional da doente. Assim, a consulta médica e a relação médico-doente assume um papel principal na avaliação e tratamento do doente com Fibromialgia.

Cabe ao médico, alertado para as várias características desta entidade, esclarecer o doente sobre a realidade do quadro clínico, pondo de lado medos e ansiedades injustificadas e traçando estratégias que possam reverter o quadro negativo, atuando em todas as vertentes interligadas da síndroma fibromiálgica, as quais envolvem factores sociais, psicológicos e físicos.

É também importante que a doente fibromiálgica “abra a sua mente” a uma nova perspectiva da sua doença, fazendo cair as barreiras que em si mesmo levantou e que potenciam o seu sofrimento. Sem que a doente dê uma oportunidade a si mesmo tudo estará comprometido.

O tratamento da Fibromialgia envolve métodos farmacológicos e não farmacológicos, os quais devem ser usados em conjunto, adaptando-se às características individuais de cada doente. A individualidade do tratamento é determinante, pois os diversos componentes da síndrome fibromiálgica nem sempre se expressam da mesma maneira em cada pessoa afectada.

É importante que a doente compreenda que o conjunto de medidas terapêuticas que lhe é sugerido pelo médico dificilmente irá resultar numa melhoria significativa a curto prazo e que por vezes é necessária uma abordagem multidisciplinar, envolvendo outros profissionais de saúde.

A cronicidade e complexidade do quadro fibromiálgico exigem uma terapêutica contínua, sem mudanças bruscas e que tenha um tempo suficiente de actuação para poder expressar a sua eficácia. É frequente, devido ao enquadramento negativo daquilo que influencia a sua vida, que a doente com Fibromialgia descreia das medidas terapêuticas que lhe são prescritas, forçando a uma prática terapêutica de “arranque-paragem” sucessiva, que em nada contribui para o potencial sucesso das medidas a tomar.

Entre as medidas não farmacológicas envolvidas no tratamento do doente fibromiálgico estão: o reforço da relação médico-doente, numa atitude de compreensão e de perspectiva positiva em relação à doença; a educação acerca das características da Fibromialgia e das medidas que podem fazer reverter as suas várias vertentes negativas; a intervenção a nível psicológico tentando inverter os processos mentais que favorecem a doença; o estímulo à actividade física e mental, incluindo o exercício físico adaptado a cada situação; a mobilização em água aquecida, a qual tem capacidade relaxante muscular; medidas que possam facilitar um sono de boa qualidade (por exemplo, evitar estimulantes, como a cafeína, e horários de sono irregulares ou exageradamente fragmentados), etc. Vários fármacos podem ser utilizados no tratamento da Fibromialgia, a sua prescrição isolada ou em conjunto depende da avaliação clínica de cada caso individualmente, dependendo das características da doença, de outras patologias associadas e de eventuais condicionantes à sua utilização (exemplo contra-indicações e interacções medicamentosas).

A Fibromialgia, apesar de geralmente comportar-se como uma síndrome clínica incapacitante, pode ter tratamento e recuperação. O negativismo e a incompreensão, tanto dos profissionais de saúde, como dos próprios doentes, que muitas vezes gira à volta do conceito de Fibromialgia devem ser combatidos por uma atitude correcta e positiva na abordagem do doente fibromiálgico.

Autor: Dr. Paulo Clemente Coelho, Reumatologista

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Nota: Este artigo foi escrito com o antigo Acordo Ortográfico

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