Gravidez, Maternidade, Paternidade e EM/SFC

Maternidade e EM/SFC

Uma vez que quatro vezes mais mulheres do que homens sofrem de Encefalomielite Miálgica / Síndrome de Fadiga Crónica (EM/SFC) e que a maioria delas está em idade fértil, muitas terão uma decisão difícil para tomar.

Decidir quando ter um filho e como o enquadrar na sua carreira (isto é, no caso de ainda conseguir ter uma carreira mesmo com uma doença crónica debilitante) e com outras vertentes stressantes da vida pode ser muito desafiador a nível emocional, financeiro e físico. As preocupações com a gravidez e os futuros cuidados da criança estão sempre presentes na mente da doente.

 

O Estado da Investigação

Infelizmente, têm sido realizados muito poucos estudos sobre os efeitos e riscos da gravidez, parto e pós-parto nas doentes com EM/SFC, gravidez e doença periodontal pós-parto em crianças com EM / SFC. Questões como se a progressão da doença se altera durante ou como resultado da gravidez ou se a experiência da gravidez e do parto são diferentes nas doentes com EM/SFC e nas outras mulheres continuam sem resposta.

O estudo mais detalhado até ao momento foi realizado por Schacterle e Komaroff em 2004. Das 86 mulheres com 252 gestações que ocorreram antes ou depois do aparecimento da EM/SFC, observou-se, curiosamente, que um número delas relata uma completa cessação dos sintomas da doença durante a gravidez, um terço experiencia um agravamento dos mesmos e 40% não sentem qualquer alteração. Os resultados destes estudos após a gravidez são semelhantes, existindo uma pequena percentagem (cerca de 20%) de mulheres que melhoram e outras que pioram.

Alguns médicos sugerem que o aumento súbito de hormonas relacionado com a gravidez é provavelmente o responsável pela recuperação dessas mulheres. No entanto, eles não conseguem identificar os fatores que influenciam a recuperação ou o agravamento do estado de uma determinada doente durante a gravidez.

O mesmo estudo observou que a taxa de abortos (denominados abortos espontâneos na literatura científica) foi superior nas gestações ocorridas depois do aparecimento da EM/SFC do que nas ocorridas antes (30% vs. 8%), mas não se observaram diferenças nas taxas de outras possíveis complicações. Foram relatados com maior frequência atrasos no desenvolvimento ou dificuldades de aprendizagem (21% vs. 8%) nos filhos das mulheres que engravidaram depois da EM/SFC. No entanto, os investigadores concluíram que: “A gravidez não agravou consistentemente os sintomas da EM/SFC. A maioria dos resultados obtidos com as mães e com as crianças não foram sistematicamente piores em gestações ocorridas após o aparecimento da EM/SFC. As taxas mais elevadas de abortos espontâneos e de atrasos no desenvolvimento da criança podem ser explicadas pela idade da mãe ou por diferenças de paridade, e devem ser investigadas através de estudos maiores e mais prospetivos realizados em grupos de controlo”.

É evidente que as mulheres que tiveram filhos após o diagnóstico eram mais velhas do que quando tiveram o filho antes de terem EM/SFC. Isto poderia explicar as taxas de aborto e de atraso no desenvolvimento da criança, daí a necessidade de se realizarem estudos com amostras maiores e em grupos de controlo.

Peggy Allen, professora assistente da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Utah publicou um artigo intitulado “Chronic fatigue syndrome: implications for women and their health care providers during the childbearing years”. O resumo do artigo diz o seguinte:

“Poucos estudos científicos sobre a experiência da gravidez, do parto e do período pós-parto em mulheres com EM/SFC têm sido realizados. Uma revisão da literatura e dos resultados da pesquisa atual que abordam a epidemiologia, o diagnóstico, os sintomas e o tratamento da síndrome da fadiga crónica são apresentados, bem como os dados atualmente disponíveis sobre a experiência de mulheres com síndrome da fadiga crónica durante o planeamento ou a experiência da gravidez e o período pós-parto. A opinião dos especialistas é apresentada juntamente com as evidências atuais de modo a fornecer orientações para o atendimento de mulheres com síndrome de fadiga crónica durante a gravidez, parto e nascimento, lactação e período pós-parto.”

Peggy Allen inclui os seguintes tópicos:

 

Efeitos da Gravidez na Síndrome da Fadiga Crónica

O estudo mais abrangente até o momento é o de Schacterle e Komaroff, sobre aproximadamente um terço das mulheres que recuperam durante a gravidez. Os especialistas Nancy Klimas, Lucinda Bateman e Charles Lapp relatam resultados ligeiramente diferentes na prática clínica. Eles observaram que em grupos de 6 a 27 mulheres acompanhadas durante a gravidez, a maioria relatou que os seus sintomas de EM/SFC melhoraram; por exemplo, no grupo do Dr. Klimas 20 mulheres chegaram até ao ponto de remissão. No entanto, as doentes sofreram geralmente náuseas e vómitos mais graves durante os primeiros meses de gravidez, exigindo uso de antieméticos durante a quimioterapia.

 

Efeitos da Síndrome da Fadiga Crónica na Gravidez

A EM/SFC teve impacto na decisão de ter ou não ter filhos em 21% das mulheres da pesquisa de Schacterle e Komaroff, sendo as decisões a de não ser mãe de todo ou a de não ter mais filhos. A justificação mais comum foi que a incapacidade provocada pela EM/SFC afetaria a sua capacidade de ser mãe. A EM/SFC pode, por outro lado, afetar a fertilidade, embora a pesquisa nesta área seja ainda muito preliminar. Observou-se que a ocorrência da Síndrome do Ovário Policístico (SOPC), de dismenorréia e de endometriose são mais comuns nas mulheres com EM/SFC. Schacterle e Komaroff identificaram que a taxa de aborto espontâneo no primeiro trimestre foi 4 vezes superior ao normal nas doentes com EM/SFC. No entanto, eles apontam fatores confusos, como a idade das mães, como responsáveis por esses resultados e referem que são necessários mais estudos nessa área.

Os autores não encontraram provas de que a ocorrência de outras complicações da gravidez fosse superior nas doentes com EM/SFC. Embora existam provas científicas convincentes que apontam para uma predisposição genética para a EM/SFC, não há provas de que uma grávida possa transmitir diretamente a doença para seu feto. O mesmo estudo constatou que os atrasos no desenvolvimento foram relatados com maior frequência em filhos de mulheres que engravidaram após o aparecimento da EM/SFC. Baschetti levantou a hipótese de que o hipocortisolismo que ocorre com a EM/SFC e o papel da secreção maternal de cortisol no crescimento e desenvolvimento fetal possam ser explicações para este aumento na taxa de atrasos no desenvolvimento, embora Schacterle e Komaroff tenham o cuidado de observar que os resultados dos seus estudos precisam de ser validados por estudos maiores e mais prospetivos, com amostras maiores e em grupos de controlo.

 

Efeitos Recíprocos da Síndrome de Fadiga Crónica, do Parto e do Nascimento

Não existe qualquer estudo sobre se a EM/SFC afetam o trabalho de parto e o parto, ou se o trabalho de parto e o parto afetam a EM/SFC. No entanto, pode-se inferir com base na resposta fisiológica bem documentada ao stress em pessoas com EM/SFC que um trabalho de parto prolongado e mais doloroso aumenta o risco de recaída para uma mulher com EM/SFC.

 

Recuperação Pós-parto com Síndrome de Fadiga Crónica

Schacterle e Komaroff observaram que 50% das doentes relataram um agravamento dos sintomas, 30% não relataram qualquer alteração e 20% relataram melhoras durante o período pós-parto. Algumas mulheres sofrem recaídas meses após o nascimento da criança. O Dr. Klimas observou que geralmente as suas doentes com EM/SFC sentem-se bem até 3 a 6 meses após o parto, momento em que uma recaída nos sintomas da EM/SFC normalmente ocorre e é com frequência grave. O Dr. Klimas e o Dr. Bateman levantam a hipótese de que as mudanças hormonais combinadas com as exigências físicas e emocionais de cuidar de uma criança, particularmente a interrupção do sono, possam ser responsáveis pelas recaídas em mulheres com EM/SFC.

 

Toma de Medicamentos para a Síndrome de Fadiga Crónica Durante a Gravidez e Lactação

As mulheres com EM/SFC que engravidam e amamentam os seus bebés devem estar preparadas para ter que descontinuar alguns dos medicamentos comumente prescritos para o alívio dos sintomas de EM/SFC. A Midodrine não é recomendada. Acredita-se que a Fludrocortisona seja teoricamente segura devido à sua semelhança com a Cortisona. Outros medicamentos devem ser considerados individualmente.

 

Conclusão

O artigo conclui em parte: “Embora a interação entre a EM/SFC e a gravidez, o parto e o período pós-parto ainda não se encontre cientificamente elucidada, provas indicam que a parteira é a pessoa ideal para fornecer o tipo de assistência perinatal mais propícia a uma experiência de parto positivo para mulheres com EM/SFC. ”

 

Paternidade e EM/SFC

Um artigo do Dr. Charles Shepherd no site do Reino Unido ME/CFS Parents intitulado Pregnancy And ME/CFS refere que: “Começar ou aumentar o uma família é sempre um grande passo para qualquer casal. Mas quando a parceira tem EM/SFC, é um passo que obviamente requer muito cuidado e planeamento”. O artigo menciona também o cenário de quando o doente é o parceiro masculino.

 

Pais com EM/SFC a Educar Crianças

Quer se trate de um casal heterossexual, de um pai/mãe solteiro(a) ou de um casal homossexual, existem poucos estudos acerca do efeito provocado nas crianças por um dos progenitores ou ambos sofrerem de EM/SFC. Os estudos realizados incluem um estudo do Dr. Niloofar Afari e dos seus colaboradores acerca de filhos adolescentes de mães com EM/SFC, cujo objetivo era determinar se estes relatavam maior prevalência de EM/SFC ou maior fadiga, maior sensibilidade à dor, mais problemas de sono e pior resposta de fitness cardiopulmonar do que aqueles com mães sem EM/SFC.

Os resultados foram: “Comparados aos filhos de mães saudáveis, os filhos de mães com EM/SFC relataram maior prevalência de fadiga durante pelo menos um mês (23% versus 4%), fadiga de 6 meses ou mais (15% versus 2%), e preencheram também os critérios para o diagnóstico de EM/SFC (12% versus 2%), embora essas diferenças só tenham atingido significância estatística. As mães com EM/SFC e as mães saudáveis ​​diferiram em quase todos os resultados do estudo, mas os grupos de filhos não diferiram quanto às medidas de gravidade atual da fadiga, sensibilidade à dor, sono, número médio de pontos sensíveis e aptidão cardiorrespiratória.”

 

Genética e EM/SFC: A doença é hereditária?

O papel da predisposição genética na EM/SFC sempre foi e permanece um tópico controverso. Os estudos genéticos em gémeos idênticos (monozigóticos) e não-idênticos (dizigóticos) e subsequentes artigos relataram que os fatores genéticos desempenham um papel na doença e que existem provas crescentes de que a hereditariedade é um fator de risco para desenvolver EM/SFC. No entanto, não existe muita concordância sobre os genes envolvidos ou os fatores ambientais em jogo.

 

Autor: Emerge Austrália

Tradução: Ana Fonseca

Este artigo foi traduzido pela Myos com expressa autorização da associação Emerge Austrália. O artigo não pode ser reproduzido nem utilizado em outras vias sem autorização da Myos e da Emerge Austrália.

Artigo original: https://emerge.org.au/diagnosis/managing-symptoms-daily-basis/pregnancy-motherhood-mecfs/#.XEc9P1z7TIU

 

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Categories:Parentalidade e Gravidez, Viver com a doença

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