Carta aos doentes

Caros amigo (a)s,

De há um ano a esta parte, tenho constatado que há um número muito elevado de pessoas, algumas muito jovens ainda, que sofrem de dor crónica, mais ou menos incapacitante. Salvo excepções de pessoas dotadas de uma grande sensibilidade, que felizmente as há, faz parte da natureza humana só valorizar devidamente certas sensações más (e as boas também) de natureza física,  psíquica e emocional, depois de as experimentar na pele, e eu não sou excepção.

Se é verdade que, nos casos menos graves, há pessoas que apelam à sua criatividade e intuição e dão a volta por si sós, também é verdade que nem todas chegam lá sozinhas, sobretudo quando está em causa a nossa autonomia física elementar que, por sua vez, se reflecte no nosso bem estar psíquico. Nesses casos, se falham apoios sociais e o apoio familiar e, ainda se os meios económicos são escassos, é um drama.

Também é sabido que a maioria das pessoas normalmente não gosta sequer de abordar estes assuntos e de expor fragilidades, porque isso nos diminui aos olhos dos outros (dos fracos não reza  a história, não é?), porque é incómodo e porque nos é difícil encarar o lado cinzento da vida, mesmo que seja a vida de outras pessoas.

Acontece que há questões que só podem melhorar se estivermos cientes dos factos. Factos que existem e são realidade para muita gente.

Dos contactos com outras pessoas com problemas idênticos e da troca de experiências sobre a melhor forma de lidar com adversidades que não controlamos, resultaram algumas dicas, disponibilizadas por diversos grupos de apoio da Myos, que julgo úteis e por isso são habitualmente distribuídas às pessoas que assistem às reuniões mensais de inter-ajuda. É claro que antes de mais e, depois do processo de auto-aceitação da condição crónica, há que redefinir expectativas e prioridades, é vital restaurar e manter uma boa auto-estima e também muita força de vontade do próprio, sem isso, nada feito. Cultivar um bom sentido de humor também ajuda bastante!

Para quem está de fora, familiares, amigos e colegas, há que aceitar também – e eu sei que também não é nada fácil! Para os nossos pais / filhos / maridos / companheiros, que VIVEM CONNOSCO, então, nem se fala – mas há que enfrentar estas situações e ser realista quanto às limitações físicas, mais ou menos acentuadas, que estas pessoas têm – sem exigências  impossíveis de cumprir, mas também sem dramatizar.

Ninguém deseja sentimentos de piedade que não levam a nada, antes pelo contrário, só contribuem para baixar mais a auto-estima de quem está fragilizado. Deseja-se sim compreensão e sentido de solidariedade, responsabilizando ao mesmo tempo as pessoas e tirando partido das suas aptidões. Todas elas continuam dispostas a dar o seu melhor – acreditem que por vezes bastam pequenos gestos para fazer uma GRANDE diferença.

Neste sentido, não sei exactamente até que ponto o estado nos deve apoiar, mas sei que É FUNDAMENTAL que o faça, através das suas instituições públicas e que crie incentivos para que outras entidades o façam. Creio que só essa atitude construtiva faz andar o mundo para a frente, integrando todas as pessoas numa sociedade mais justa.

É óbvio que as associações que apoiam doentes com as mais diversas patologias  têm aqui um papel fundamental – temos de ser mesmo nós a lutar … por nós!

Desculpem a comparação, mas estou a lembrar-me dos atletas portugueses, ditos deficientes, que conquistaram no ano passado, e anteriormente também, várias medalhas nos Jogos Paralímpicos – com escassos apoios – não serão muito mais EFICIENTES que os ditos “normais”? Não farão melhor figura no seu contexto…?

Isto com poucos apoios – imaginem se tivessem o apoio devido!!! Por certo teríamos muitas mais medalhas, já que muitos mais (D)EFICIENTES teriam acesso à prática de diversas modalidades!

Claro que todos sabemos que, no mundo em que vivemos, com graves problemas de desemprego a afectar gente nova, saudável e até qualificada e com grandes preconceitos, isto de integrar a todos é complicado.

Numa sociedade materialista, em que muitas vezes os que detêm o poder se regem por valores distorcidos, em que se descrimina e tende a excluir todo aquele  que é diferente e mais “fraco”, urge acima de tudo lançar um grito de apelo e passar uma mensagem de esperança.

Falando concretamente da dor crónica e do seu impacto na vida das pessoas, é importante referir que com as estratégias certas, tratamento médico adequado, reabilitação e exercício físico adaptado, perseverança, compreensão e apoio de familiares, amigos e colegas de trabalho tudo se torna muito mais simples para muita gente.

É possível melhorar a qualidade de vida das pessoas e, aí sim, TUDO vale a pena porque – a alma não é pequena, como dizia o nosso Fernando Pessoa, mas principalmente porque a vida continua a fazer sentido para TODOS!

Parafraseando o grande homem que foi Mahatma Gandhi, termino lembrando que “A força não provém da capacidade física e, sim, de uma vontade indomável“.

Vale a pena pensar nisto.

10 de Maio de 2004

Autora: Cristina Seabra, Sócia da Myos e antiga presidente da Delegação de Coimbra da Myos

Este artigo foi escrito pela autora para utilização pela Myos e não pode ser reproduzido em outros sites, blogues e páginas, sem a expressa autorização da autora e da Myos.

Nota: Este artigo foi escrito antigo Acordo Ortográfico

 

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